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Era o Jairo. Eu quero dizer pra ele Que a rima fez efeito E agora eu penso o dia inteiro Só ele faz minha pupila dilatar É bom demais querer alguém E eu quero você, e eu quero você Eu quero você, ah É bom demais querer alguém E é você que eu quero, e é você que eu quero E é você, oh Como que eu vou dizer pra ele Que eu quero aquele beijo? Onde é que eu estou? Vai dar esse cu de ferro, Ricardinho, tenho certeza que você vai gostar. Que pó cortado da porra é esse? Lia Paris Me olho no espelho e vejo a tia Suzel. Atravessou a areia e se jogou no mar imundo, chovera a cântaros no dia anterior. Falou ríspido, irritado. Comecei a fumar aos doze, a beber aos treze, e me viciei em bolinha aos quinze. Ribeiro pediu para Suzana se livrar do charro. Voltou a amontoar gente.

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O carro continua andando; como assim, continua andando? Abre o olho, desgraçada, vem ver o que você aprontou. Um pulo. Dobro a perna direita, estico a esquerda e me jogo pra frente. Anda, a lataria no tergal! Andar deixou de ser um ato inconsciente. Aciono os comandos. Eu jogo o meu esqueleto em cima do pedregulho e ele solta?

Quem foi o relapso que socou isso aqui? Cadê o empreiteiro? A queda. A minha queda, aquela que vai me fazer ter saudade do dia em que eu contava os passos no caminho do consultório do Mattos.

De uma hora para outra serei tia Suzel. O cotovelo esfola, o quadril sai do lugar e a cabeça se precipita no granito bruto do meio-fio e bate, como um badalo de sino de igreja. Preto, preto, preto, preto, preto, cadê branco? Cadê as ondas do mar? O meu anjo da morte. Quem diria? Tem sangue saindo da minha cabeça. A perua do saiu do carro aparvalhada, o porteiro vem correndo. Estou bem, aqui. Foi bom lembrar dos amigos, nada é por acaso. Se houvesse outra vida, seria bom encontrar com eles, visitar o Ciro e o Sílvio no inferno, ia ser bom.

Nem o budista reencarnacionista acha que vai voltar igual ao que foi. Vou estar na planta, na baba da lagarta que devora a planta, na mosca que lambe a baba da lagarta que devora a planta. Estarei por ali.

Foi de bom tamanho, eu estava cansado. A indiferença daqui me cai bem. Falei muito mal das mulheres, elas merecem. Desintegro no ar sobre Copacabana. Uma vez, li que a morte era o momento mais significativo da vida, e é mesmo. IRENE recebeu com frieza a notícia da morte do homem com quem vivera quinze anos de sua juventude. A filha telefonou aflita de Uberaba, estava no aeroporto, o pai jazia numa geladeira no IML. Era assim que se referia a ele, o Equívoco. O cheiro ardia nas ventas, penetrando nos poros mesmo com as narinas tapadas.

O assento rachado beliscou a coxa, obrigando-a a manter a perna sob vigília. O pesar rondava o rosto dos que, como ela, esperavam a vez. Absorta no limbo, assustou-se com um guincho agudo vindo do corredor. Levaram-na pra fora. Os urros na calçada a fizeram comparar o seu estado com o da gorda. Cento e dezessete, chamaram.

Depois de se apresentar no guichê, foi conduzida por um rapaz de jaleco encardido até o elevador; subiram em silêncio, evitando o olhar. Saltaram no terceiro andar. Uma comprida galeria de portas fechadas se estendia a perder de vista.

O ar funcionava melhor ali dentro, mas o fedor se agravara. Numa daquelas gavetas escondia-se o fantasma, o seu fantasma. Teve vontade de vomitar.

Parado diante do segundo quadrado, no canto oposto à entrada, o rapaz fez sinal para que Irene se aproximasse. Sobre ela, o Equívoco. Nunca mais o vira. Aos poucos, a luz descortinou o nariz ainda mais adunco e as bochechas murchas.

A papada e a calva unidas formavam uma moldura de pele enrijecida em volta do rosto. O cinza-pedra das feições. O trilho se estendeu até o final, permitindo enxergar os ombros mirrados, os braços finos, a barriga de sempre e os pelos embranquecidos. Constrangeu-a vê-lo nu. Como era pequeno. A boca arqueada se juntara ao sulco que partia das abas das narinas, criando um aspecto maligno que jamais tivera. A passividade cômica de antes cedera lugar a uma carranca tensa.

Teria se tornado um homem mau? Os mortos nunca se parecem com os vivos, pensou. No casamento da filha? Enterro da Célia? De Neto?

Na cama, com ele? Os quartos separados, o desconforto do par, a careca evidente, a raiva, a pança, o cansaço, a inércia e a brochura daquele homem. Do casamento, nenhum afeto sobreviveu. Ele devia ter virado padre. O que a prendia a ele? Aquela garota? O décimo terceiro da empregada? Queria viver, trepar, amar, e nem sabia se ainda restava tempo para aprender a fazer tudo isso. Casais bem mais realizados enfrentavam o seu fim.

O Ciro e a Ruth. Ele é um zero, um nulo, um nada, como eu posso sofrer por um nada? Vera foi dura. A paciente ouviu ofendida. Aceitou o grupo. O pensamento vagara sem que se desse conta. Por que recordar daquela tarde? Foi objetiva. Sem mais, Irene Azevedo da Costa. Havia muito, para seu regozijo, o desquite, seguido de divórcio, extirpara o Soares de seu nome completo.

Quando botou os pés na rua, o asfalto fervia. Uma da tarde. Queria voltar para a toca, tomar um banho e jogar a roupa e os sapatos no incinerador. Ela havia acabado de limpar a craca do IML no longo banho de chuveiro. Enterre seu pai sem autopiedade. Ele tinha mais de oitenta anos! Eu tenho setenta e três anos, mocinha! Eu é que devia te chantagear! O cortejo sairia às quatro.

Era um Corsa velho, sem ar, com a marcha solta e um futum exasperante de odorizador de ambiente com sovaco de trabalhador. Quis saltar, inventar uma desculpa, mas teve pena do motorista. Mandou seguir. Mesmo respirando pela boca, o perfume azedo subia pelo paladar.

Capela Achou que estivesse enganada,. Evitou revê-lo. Desviou para sentar-se nas cadeiras alinhadas em fila, encostadas na parede. Irene contava os segundos que a separavam da ducha que tomaria ao chegar em casa. Ninguém mandou flores, notou. Devia ter trazido uma revista.

Cadê a Rita? Irene riu da besteira. Depois, o silêncio apossou-se dela. Da mudez, veio a lembrança. Os olhos de Irene marejaram.

Foi um bom pai, pensou, e se enterneceu dele. Sentiu respeito e até saudade do homem deitado imóvel na sua frente. Foi assaltada pela viuvez. Humilde e respeitoso, um senhor abriu a porta. Ficou em pé, rezando, apoiado na madeira do esquife por largos minutos. Quando terminou, fez o sinal da cruz e se virou para a sala.

A falta de quórum o constrangeu. Ignorando a reserva de Irene, avançou até a cadeira vizinha à dela. Que coisa…, balbuciou o homem. Pois é, que coisa, respondeu Irene. Melhor interrompê-lo. O tempo voa. Irene cogitou gritar por ajuda, tinha horror a clichês. É pra frente que se anda. O porteiro era uma metralhadora giratória de frases feitas. De uma hora pra outra, interrompeu o discurso. Deve ter cansado, pensou Irene, e deu graças por isso. Eu perdi minha mulher faz um mês.

Ela… ela…, a voz embargou. Apesar das tentativas, foi impossível seguir adiante. Irene assistiu à pantomima de dor, ao vai e vem do pranto, aos espasmos e soluços, aos gestos desconexos. Ansiosa, olhou para a porta. Achei alguém para chorar o teu pai com você! E a senhora? Ah…, e se recompôs diante da objetividade da interlocutora. Irene o perdoou pelo transtorno e o assunto acabou subitamente.

Ficaram calados, olhando o infinito. A praticidade da ex-mulher do condômino ajudou-o a voltar aos eixos. Rita chegou quase uma hora depois do porteiro. Seu luto se transformara numa burocracia infernal de carimbos, vias e assinaturas. Um problema com a papelada fez com que o enterro do pai fosse adiado para o fim do dia. Irene controlou o desespero. Ficar ali ainda uma hora. Foi uma fatalidade. Eu sei, concordava Rita. Irene ouvia entediada, tinha sono. Ainda faltavam uns bons palmos de azul para o entardecer.

Sendo assim, Irene se voltou para ouvir o papo arrastado de Rita com o grilo falante. A luminosidade da janela dilatara as pupilas, o que fez com que seus olhos demorassem a se ajustar à pouca claridade do interior. O teto empreteceu, Irene sentiu vertigem e se amparou no espaldar do assento.

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Recostou a cabeça na parede, teve calma e aguardou a cegueira passar. Rita e o porteiro haviam saído. Pedia socorro. Acordou com um sobressalto. Irene demorou a focar. Quatro e meia. Eu estou cansada, preciso ir. Voltou para o velório. Estava em pé, em frente à entrada, quando alguém entrou chutando a porta. Rita, Irene e o porteiro se voltaram surpresos. Quem chamou este palhaço?

Rita, foi você? Irene encarou-o indignada. Se a natureza fosse justa, a próxima seria ela. Preferia ser transferido para uma comunidade pequena, onde ainda houvesse fiéis.

Via o quanto os seres urbanos eram hostis e descrentes da paz eterna. O entusiasmo de seminarista cedera espaço a um isolamento estéril, sem saída. Sonhava em celebrar casamentos, batismos, tudo menos aquilo. O convívio excessivo com a morte o tornara insensível. Padre Graça esperava resignado. Por isso, a perspectiva de enfrentar a sequência de velórios, no longo dia quente que se anunciava, lhe consumia os sentidos. Teria perdido a fé? A ideia de abandonar a batina o seduzia especialmente à noite, como um demônio insistente.

Estava cansado da cruzada contra o fogo amigo dos evangélicos e o inimigo dos ateus. Perdemos a luta.

Apesar da tristeza, os parentes se mostraram resignados com a partida da matriarca. Católicos praticantes, se empenharam na missa. No final, agradeceu aos presentes e confessou: Entrei aqui sem esperança, saio com ela redobrada. Novamente abalado pela quantidade de vezes em que Deus parecia dormir, padre Graça se deixou arrastar pelo pessimismo. Sou um coveiro de Deus, desabafou em voz baixa. Chegou a reduzir a marcha, certo da incapacidade de oferecer conforto.

Preciso eu de consolo. O engano residia na benevolência passiva do sacerdote. De que serve a misericórdia? O catolicismo deve eleger a firmeza como aliada. Sou um pastor, percebeu, mas me castro na pele de ovelha. Afaste de mim a bondade. Serei impiedoso, viril, romano, bélico e voraz.

O lado terrível do ser divino. O Antigo Testamento é meu guia. Padre Graça calou-se, parado, segurando a porta entreaberta, sem saber se aquele era o início ou o grand finale da missa.

Padre Graça pousou os olhos numa velha dama elegante que o mirava assombrada. Era Irene. A próxima. Graça arrependeu-se da bravata, ensaiou uma reverência acanhada e partiu sem fechar a porta. O dia estava encerrado. Sua carreira também. Eu tenho que ir, Rita! Cadê o Cézar? Mas, antes que soltasse o desabafo, os coveiros chegaram para dar a saída. Irene foi junto. Como era bom se sentir segura, e como foi duro perder as certezas. A adolescência destruiu-lhe a graça, a escola a inocência e os homens a delicadeza.

O enterro, o velório, tudo veio inteiro e de uma vez. Quanto tempo tinha ainda? Nem a filha precisava mais dela, a verdade é que mal se viam. Naquela noite, sonhou. Estava na praia.

Era magro, forte e bonito. Sorriu para Irene. Que bom, Irene. E a beijou. Depois, ficaram assim, enlaçados. No dia seguinte, levou a filha até o aeroporto. Falou do pai como os filhos costumam falar após as exéquias, com cerimônia. Irene ouviu, era seu papel ouvir. Era a hora de Rita contabilizar seus feitos e de Irene dar valor à maturidade da filha.

Fingiu dar. Na despedida, abraçou a cria, lembrou dela neném, do futuro que projetara para ela, do choro, das aflições, das brigas, depois olhou para a mulher na sua frente. Rita havia crescido, aceitara uma existência modesta no interior, com um homem medíocre, mas sólido, fiel e presente.

Possuía o bastante da passividade bovina do pai para se contentar com a vitória dos meninos no futebol, com a novela das nove e o Carnaval no clube. Era feliz, bem mais do que Irene. E de Irene havia herdado o brio.

Era submissa à vida doméstica, mas nunca ao marido. Conseguira a vitória onde Irene falhara, soubera controlar os impulsos e se satisfazer nas insatisfações.

Rita cumpria com mestria as duas grandes obrigações do mundo moderno, ser jovem e ativa. Ia à academia diariamente, comia direito e passava cremes à noite. Cuidava da contabilidade da clínica de exames do sogro. De qualquer maneira, era um presente melhor do que o que prometera a nefanda adolescência.

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A pele de Rita estourou de espinhas, os quadris alargaram e a barriga, engraçada aos quatro, preocupava aos doze. A mesma rotina ocorreu nos anos seguintes. O pior veio depois, quando passou a desdenhar dos folhetins e deixou de tomar banho. Botava Led Zeppelin para a vizinhança ouvir e respondia com raiva a qualquer pergunta que lhe fizessem.

Irene era a sua inimiga figadal. Pagou e passou. Tudo parecia perdido. Quinze dias em Ouro Preto na companhia de umas amigas igualmente bizarras. Rita perdeu a virgindade em Ouro Preto, tinha dezoito anos, e voltou outra.

O namoro com o Cézar engatou e tudo nela amainou. Casou-se com vinte e um, depois de um longo noivado, e se mandou para Uberaba. Teve dois filhos homens e acabara de perder o pai. Vai morrer em paz, pensou Irene, é uma qualidade e tanto. E abraçou a filha, dessa vez, com o merecido respeito. Ficaram a sós, ela e as suas frustrações. Ela apareceu bêbada. Chegou dizendo que precisava de dinheiro e se arrumou para sair. Tinha acabado de escurecer.

Fez isso na minha frente e saiu andando pelo corredor. Eu achei demais aquilo, barrei a porta e mandei ela botar o dinheiro de volta. A Rita me empurrou com força e tentou virar a chave, eu puxei ela pelo cabelo, a cabeça bateu na quina do batente. Ela sempre foi difícil. Você é difícil? O regozijo do grupo crescia a cada fracasso seu. A bolha. Logo ela, que apanhava em casa e tinha um filho drogado. E pra alguém que te coma direito.

Havia a suspeita de que ele estivesse tendo um caso com Vera. A analista sofrera grandes transformações, emagrecera, passara a usar saia, salto alto e batom. A mudança coincidira com a chegada de Paulo, que nunca falava dele e se divertia com o psicodrama dos outros. Paulo gostava de concluir os ataques endereçados a Irene com frases irônicas, sempre machistas, tiradas sobre a carência feminina e as glórias do pênis.

Irene terminava as sessões massacrada, Vera mal intercedia. Era como se a doutora a houvesse abandonado nua, em meio à savana, para ser devorada por lagartos carnívoros. Saiu do elevador escondendo o rosto inchado de choro. Resolveu caminhar. Como é feio Botafogo. Era uma boa sogra, silenciosa, discreta, mas havia um mês dormia no escritório. Mas ele voltou. Só para morrer perto da gente, disse a sogra emocionada.

Velho se emociona à toa. Agora, caminhava a esmo por Botafogo, sem lugar. Se pudesse, trocaria de pele, sairia de si, mudaria de nome, começaria tudo outra vez. Até completar trinta, Irene achou que atravessava um período de teste, vendo o que acontecia, jogando por jogar, mas, depois que a filha deixou de ser bebê, percebeu que o futuro se define cedo.

Rita era insegura, chata e gorda, além de pouco dotada intelectualmente. A menina foi matriculada num colégio tradicional, católico e exigente. Os pequenos problemas de aprendizado tomaram proporções catastróficas. Para evitar a repetência, a família achou por bem trocar de escola. Optaram por Piaget. Se houvesse boletim, teria levado um D. E mais, tornou-se agitada, rebelde, parou de comer sentada, pulava, desenhava peitos e perus compulsivamente. A psicóloga explicou que a criança deveria fazer o dever caso se sentisse motivada.

Esta aqui, disse, tirando uma folha de papel de uma pilha de desenhos. Ao lado, uma criatura espinhuda, semelhante a um ouriço rosado, exibia dois olhos raivosos e uma boca com dentes pontiagudos. Esforçava-se para separar a própria vaidade do destino da filha, mas era difícil. Procriei mal, pensava. O nó na garganta obrigou Irene a parar.

Ela sentou numa mureta, arfava de agonia, sentiu tontura e sufocamento. Para onde fugir? Cumpriu dois mil metros sem pensar em coisa nenhuma. Implorou para cuidar da burocracia depois do descarrego, foi atendida. Um homem atlético, aparentando cinquenta anos, bronzeado e atencioso, cuidou dos trâmites. Era o Jairo. Sorriu, vermelha, e baixou os olhos. Tinha quinze anos. Passou a frequentar o clube todos os dias, sempre sem a carteira. Ele a conduzia até a catraca e dava ordem para que liberassem a entrada.

Irene quase desfaleceu. Era macho e direto. Pediu que ela o encontrasse num bar da Farme de Amoedo às seis.

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Encabulada, deu marcha a ré e quase levou a cancela. Os dois se encontraram num bar com varanda a uns três quarteirões do hotel. Jairo virou o primeiro uísque, sacou uma nota da carteira e pôs sobre a mesa com uma gorjeta gorda. Saíram abraçados, ela ansiosa, ele focado, ambos lascivos. Entraram no , fundos. O lençol com perfume de desinfetante, o sabonetinho do banheiro apertado, nada se assemelhava à fantasia de Irene, mas era um passo, uma atitude, um começo. Antes de abrir a porta, deu um longo beijo na amante.

Ele sabia ser homem. Os quartos separados encobriram o constrangimento. Viam-se raramente.

O marido, assolado por problemas familiares, aliviou-se com o inesperado bom humor da mulher. Se estava bom pra ela, estava bom pra ele. Dormiam em camas distintas havia dois anos. Destilando acidez, sentenciou que Irene tinha escolhido o pior entre eles. Ciro o mandou calar a boca, o que só aumentou a falastrice de Sílvio. Me espanta você, Irene, ter dito sim. Você merecia coisa melhor. Ela vestiu a camisola e se deitou furiosa.

Irene explodiu. Perguntou se ele desconfiava do que se passava com ela. Da vergonha que tinha dele. Da falta que sentia de tudo. A resposta a enfureceu ainda mais. Cursaram letras juntas. Jamais entendeu. Ruth cantou loas sobre ele, encheu a cabeça de Irene.

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Prometeram se falar à distância. A correspondência durou alguns meses, mas, de repente, minguou. Ela jamais o amou, continuou com ele como se esperasse o bonde seguinte que a livraria do pequeno desvio; mas o bonde nunca passou. Os amigos em comum, o tempo, o acaso, os enlaçaram. O vinho era bom, a tarde de outono, que importava o noivo? Treze anos se foram e ela continuava na expectativa de alguém que a arrancasse dali.

Como era boba, pensou, enquanto admirava o jato alçar voo sobre a baía de Guanabara. Seria bom estar nele. Willing and able! O passarinho era o Paulo, ele mesmo, o da terapia. Um dos passatempos prediletos do Casanova era entregar as mazelas dos analisandos para o pessoal da praia. Vera gostava de discutir as sessões com ele, nos frequentes encontros íntimos que andavam tendo, muitas vezes no consultório.

Ela adorava a franqueza de Paulo, a segurança, o amor-próprio. Era alcoólatra, é verdade, mas, fora isso, era perfeito. Estava apaixonada, perdera a compostura.

Falavam mal do grupo, riam do desespero alheio e eram felizes como ninguém.

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Paulo farejava de longe o igual. O Jairo? Em um mês, esse Jairo vai parar de responder os telefonemas dela; em dois, ela vai implorar para voltar para o corno brocha do marido. Ribeiro conhecia Paulo de nome. Tinham um amigo em comum, também bombeiro. Dividiram a quadra com o Paulo. Antes do jogo, tomaram a gelada que soltou a língua do fofoqueiro. Ribeiro detestou saber do imbróglio, teria que tomar uma atitude, mas qual? Precisava dividir com alguém. Lembrou-se da vez que desancou a ex-namorada de um primo, sem pensar que os dois poderiam reatar no fim de semana seguinte.

Acabaram casados, pais de três filhos. Quem dançou foi o Ribeiro. Compreendeu a recente alegria da esposa, o porquê da leveza dela, Irene estava indo embora. Sairia bem, dois anos depois, mas nunca mais teria outro homem. Aquele era o começo do fim da vida sexual de Irene. Antes de enfrentar a travessia escaldante, olhou para Sílvio com gravidade e desejou que ele estivesse morto.

Mas isso ainda demoraria vinte e cinco anos para acontecer. E a lança também. Cem… sessenta… duzentos e cinco… duzentos e dezessete… me perdi. Dois de cinco por isso? E a lança? Inclui a lança aí, porra… É Carnaval! Sai logo desse muquifo, rei. Que pó cortado da porra é esse? Vidro moído. Onde é que eu estou? Evaristo da Veiga. Cadê os Arcos? Cadê a porra do mar? Cadê a lança?

Uuuuuuuuuóóóóóóóóó… Caceta! Caí e continuo em pé… estou doido pra caralho. Eu estava no jardim da casa do Ciro, pensando na cara de pedinte que a Norma fez com o bebê do Neto no colo, quando a doida apareceu.

Sorriu que nem criança, acendeu um baseado e virou o rosto para tomar sol. É, começa, respondi. E me ofereceu o charro, eu aceitei. Você é amigo do Ribeiro? Muito, eu disse. E ficamos mudos, olhando para a frente. Você faz o quê? Tem muito veado no Itamaraty. Eu gosto de veado, ela disse. Eu também, respondi. E você? Devolvi o cigarro para ela. Eu o quê? Ela deu uma baforada e respondeu: Eu namoro o Ribeiro.

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Sempre tive desprezo pelo Ribeiro. Simples assim. Um bronco comedor de virgens. Ele dizia que era escolha, mas a verdade é que nenhuma mulher com mais de um neurônio suportaria a companhia do Ribeiro. Chamou pelo nome, o diabo aparece. Eu ri, era ridículo demais, o jeito como o queixo dele caiu quando viu nós dois juntos. A Suzana também se escangalhou, me entregou a ponta e saiu colada nele.

Ai, que meda! A Norma atendeu e disse que era do banco. Era a Suzana. A Norma engoliu e eu sumi pelo corredor. Eu parei do lado, ela abriu a porta tomada de raiva, sentou no carona e me deu um beijo de língua que me fez ver estrelas. Nos agarramos no carro, no elevador, e trepamos na porta do apartamento, oito horas depois do jardim da casa do Ciro. Passamos a nos ver regularmente, o Ribeiro cada vez mais enciumado, a Suzana cada vez mais Suzana e eu cada vez mais entediado com a vida de casado.

Foi quando a Norma engravidou pela segunda vez. Emborquei na calçada. Que fedor de mijo. Acho que sou eu. Eu estou todo anestesiado. Levanta, Sílvio, toma teu rumo. Vai ser ruim de aterrissar dessa vez. Eu tenho um Dormonid no apartamento. Eu tenho que chegar no apartamento. Odeio o amanhecer. Cadê o pó de vidro? Mais uma, só para chegar em casa. Vêm vindo uns pivetes, foda-se. Na Cinelândia. Pra que lado é a Cinelândia? Eu vivo tonto, me sinto em transe nos estados alterados, desde sempre foi assim.

Comecei a fumar aos doze, a beber aos treze, e me viciei em bolinha aos quinze. Adoro sacanagem. Fiz muita meia com o Valdir. O coitado morreu cedo, de tuberculose, tinha só dezoito anos.

Eu era bom aluno e o meu pai encasquetou com o Itamaraty. No curso, conheci uns garotos finos que se divertiam que nem gente grande. Rico é muito mais pervertido do que pobre. Fui aceito por causa de um anestesista, herança do Valdir, que fornecia os tarja-preta; eles entravam com o uísque e cada um ficava incumbido de trazer duas acompanhantes para as festas.

Uma delas, a Miranda, era de menor. Quem trouxe foi o Fausto, disse que era prima dele. Foi a primeira vez que vi dois caras darem cabo de uma garota. O Fausto e o Bernstein. Fiquei doido. Os pais da Miranda botaram a polícia para seguir o Fausto e fomos todos parar na cadeia.

Fui expulso do Itamaraty. Meu pai, desesperado, conseguiu uma prova no Banco do Brasil com um diretor conhecido, deram um jeito de esconder a ocorrência, eu passei e resolvi os próximos cinquenta anos da minha vida. As caixas queriam casar, as gerentes constituir família e os homens só ejaculavam quando o time fazia um gol.

Melhor pastar longe do serviço, pensei. Mais uma. Uuuuuuóóóó… Uuuuuuóóóó… Caceta! Cacet… A Norma era lindinha, pequenininha e ingênua; filha de um tio fazendeiro. Fui ao Bondinho, ao Cristo, à praia, levei para tomar sorvete, apresentei aos amigos, demorou semanas para ela me dar um beijo, sem língua.

A pureza da Norma se transformou num fetiche pra mim. Era impossível, naquela época, existir sem cumprir certos rituais. O casamento era o principal deles. Quando eu levantei a saia do vestido de noiva, alucinado de bêbado por conta das comemorações, a Norma tremia que nem vara verde. Depois, caí duro para o lado, roncando.

Na vigília, ouvi a Norma chorar. Sóbrio, tratei melhor dela e a vida caminhou sem dificuldades. A rotina com os amigos era um direito sacramentado. Meu pai morreu e me deixou umas economias. Vivemos assim por dois anos sem que ela notasse a minha ausência.

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Mulheres como a Norma só têm olho para filho pequeno. Estava tudo em ordem, até a Suzana aparecer. A Norma estava no nono mês. A Vanda nasceu roxa, foi um pesadelo. Quando voltou do hospital, a Norma estava liquidada. Minha sogra se mudou para dentro de casa, veio cuidar da retaguarda. Na Glória….

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Ela me fez tirar o atraso. O Valdir, os diplomatas, a esbórnia, tudo voltou com força total. No dia da mudança, a Suzana preparou uma surpresa, chamou duas amigas da Bahia que me ajudaram a arrumar a bagunça. A Suzana montou em mim e me desejou boas-vindas. O aristocrata da turma era o Silvinho aqui. Tenho que tomar o remédio. O veneno daquele remédio. Afasta, porra! Um filho da puta vestido de zebra querendo me levantar. Estou bem aqui.

Onde eu estou? Por que tem um cara vestido de zebra tentando me levantar? Colombina… traveca… onde é que eu fui parar, cacete? Ô zebra! Chama uma ambulância e pede para me apagar com Propofol. Só serve Propofol! O do Michael! Jackson… Five… Foram embora. Graças a Deus me deixaram em paz. Meu filho me arrastou para o hospital no dia em que eu apareci pelado na portaria perguntando por fogo.

Eu queria acender um cigarro. O Parkinson acaba com a iniciativa da gente. Na clínica, me viraram de cima a baixo e deram o veredito: dali pra frente, eu teria dificuldade para andar, falar, comer, pensar, dormir e trepar.

Grande notícia. E ainda se paga para ouvir uma merda dessas. O tratamento do Parkinson é muito pior do que o Parkinson. Carbidopa 25 mg, Levodopa mg, Cloridrato de benzerazida 25 mg.

Para o farmacêutico te entregar o pacote, você tem que apresentar CPF, carteira de identidade, título de eleitor, bons antecedentes, foto. Me viciei em todos eles. A whole new world. Ah, se o Valdir estivesse aqui!

Sai, bêbado! Bafo dos diabos. Sai, sai! Vai te catar! Cadê a zebra? E você, Sílvio? Vai ficar aí? Pelo menos senta, seja digno. Zonzeira, nariz sangrando, pó de vidro do cacete. Como fede o Rio de Janeiro. Sempre fedeu.